Devia ter amado e não amei…

© Luiz Garrido (retrato de Virgínia Vitorino)

Renúncia

Fui nova, mas fui triste… Só eu sei
Como passou por mim a mocidade…
Cantar era o dever da minha idade,
Devia ter cantado e não cantei…

Fui bela… Fui amada e desprezei…
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade…
Devia ter amado e não amei…

Ai de mim…! Nem saudades, nem desejos…
Nem cinzas mortas… Nem calor de beijos…
Eu nada soube, eu nada quis prender…

E o que me resta?! Uma amargura infinda…
Ver que é, para morrer, tão cedo ainda…
E que é tão tarde já, para viver…!

(Virgínia Vitorino, 1895-1967)

Renuncia
Fui joven, pero fui triste… Sólo yo sé/Cómo pasó por mí la juventud…/Cantar era el deber de mi edad…/Debí haber cantado y no canté./Fui bella… fui amada y desprecié…/No quise beber el filtro de la ansiedad./Amar era el destino, la claridad…/Debí haber amado y no amé…/¡Ay de mí…! Ni saudades ni deseos…/Ni cenizas muertas… Ni calor de besos…/Yo nada supe, yo nada quise agarrar…/¿Y qué me queda? Una amargura sin fin…/Comprobar que, para morir, es todavía pronto…/¡Y que es tan tarde ya para vivir…!
(Traducción de Duarte Manzalvos)

Alma de luto sempre incompreendida

© Luisa Dorr

EU
Eu sou a que no mundo anda perdida,
eu sou a que na vida não tem norte,
sou a irmã so Sonho, e desta sorte
sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
e que o destino amargo, triste e forte,
impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida…!

Sou aquela que pasa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê.

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
alguém que veio ao mundo pr’a me ver
e que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, Livro de mágoas (1919).

E por vezes

David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

(David Mourão-Ferreira)

 

Y a veces las noches duran meses / Y a veces los meses océanos / Y a veces los brazos que apretamos / Nunca más son los mismos. Y a veces / encontramos de nosostros en pocos meses / lo que la noche nos hizo en muchos años / Y a veces fingimos que recordamos / Y a veces recordamos que a veces / Al tomarle el gusto a los océanos /Sólo el poso de las noches no de los meses / Allá en el fondo de los vasos encontramos / Y a veces sonreímos y lloramos / Y a veces a veces ay a veces / en un segundo se suceden tantos años. (Traducción: Duarte Manzalvos).